A exposição estranha das semanas de moda: um ritual de consumo em transformação
A cada inverno, a nossa visão é invadida por desfiles – um festival anual de tecidos, sapatos e ilusões. Da janeiro a março, a moda masculina e a alta costura de Milão e Paris ditaram o ritmo, seguidos pelo retorno de Nova York e, então, a efervescência internacional se espalha como um vírus. Há pausas, claro – o feriado de primavera e o espetáculo extravagante do Met Gala – mas logo a jet-set volta aos céus, dispersando-se por destinos exóticos em busca de coleções de resort.
O enigma das coleções de resort: uma história de estratégia
Mas o que realmente é uma coleção de resort? Ou, como alguns preferem, ‘beach pajamas’? A questão, curiosamente, já atormentava o New York Times em 1989. A origem reside no século XX, quando clientes de alto poder aquisitivo, frequentemente europeus, complementavam seus guarda-roupas com peças apropriadas para a estação, apelidadas de ‘pijamas de praia’, antes de embarcar em cruzeiros. Coco Chanel, visionária, capitalizou essa tendência, lançando o seu jersey sportswear e abrindo as primeiras boutiques em Deauville e Biarritz – onde a marca retornará em 2027, com um desfile que vale a pena acompanhar.
Com o aumento do turismo de luxo no final do século XX, a janela de oportunidade para a venda de roupas fora de temporada se ampliou. E, para ser justo, a criação de uma oferta ‘off-season’ – preenchendo as lacunas entre a coleção de outono e a de verão – tornou-se uma tática de marketing inteligente. Louis Vuitton, por exemplo, tem demonstrado uma ousadia crescente ao escolher palácios históricos como cenários para suas apresentações.

Nova york assume o comando: a era dos resorts americanos
Ainda assim, foi em 2007, quando Chanel invadiu a estação Grand Central em Nova York, que os desfiles de resort se transformaram em eventos glamourosos por si só – e Karl Lagerfeld, com seus cenários exuberantes e fotogênicos, liderou essa transformação. Agora, as semanas de resort frequentemente oferecem experiências mais amplas do que as apresentações regulares de moda. Como quando o desfile de resort 2017 de Chanel foi um dos primeiros eventos americanos a ser recebidos no pós-embargo cubano, há quase 40 anos.
Longe dos vestidos de ombro a ombro e das silhuetas leves de outrora, as coleções mais recentes têm abraçado conceitos mais ousados e conceituais. Esta temporada, vemos nomes europeus se aventurando nos Estados Unidos em busca de novas coleções de resort. Jonathan Anderson, no comando do Christian Dior, e Demna, na Gucci, prometem apresentar criações inovadoras. E Nicolas Ghesquière, da Louis Vuitton, complementará a programação.
O que antes era uma tradição europeia agora parece definir a temporada – a corrida para Brooklyn, em vez de Capri. Um simples par de bermudas de linho já é mais notável do que um clássico par de calças capri.
