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Financiamento obscuro impulsiona leis contra ações climáticas

Enquanto o planeta luta contra os crescentes impactos das mudanças climáticas, uma rede de financiamento obscuro, liderada pelo influente ativista conservador Leonard Leo, está orquestrando uma campanha para proteger a indústria de petróleo e gás de responsabilização legal. Uma investigação do ProPublica revela um esquema alarmante que ameaça minar os esforços para responsabilizar as empresas pelos danos causados pelo aquecimento global.

Legislação estratégica em estados estratégicos

Legislação estratégica em estados estratégicos

A estratégia é simples, porém devastadora: inundar legislaturas estaduais com projetos de lei que dificultam ou impossibilitam que as empresas de petróleo e gás sejam processadas por seus papéis na crise climática. Pelo menos quinze dessas leis já foram aprovadas ou estão em debate em onze estados, representando um ataque direto aos mecanismos de proteção ambiental e à capacidade da sociedade civil de buscar justiça.

O que torna essa campanha ainda mais preocupante é a coordenação por trás dela. O ProPublica descobriu que esses projetos de lei não são iniciativas espontâneas de legisladores locais, mas sim o resultado de um esforço meticulosamente planejado e financiado por um grupo de organizações com ligações diretas a Leonard Leo, o arquiteto da ascensão de juízes conservadores à Suprema Corte dos EUA. Essas organizações, muitas delas envoltas em sigilo financeiro – o chamado “dark money” – fornecem recursos, modelos de legislação e até mesmo assessoria de lobby para garantir a aprovação desses projetos.

O que ninguém conta é a escala desse financiamento. Desde 2021, Leo teria direcionado cerca de 1,6 bilhão de dólares através de uma intrincada rede de organizações sem fins lucrativos, tornando quase impossível rastrear a origem e o destino final desse dinheiro. Grande parte desse fluxo financeiro passa pelo The 85 Fund, uma organização fundada por Leo que atua tanto como receptora quanto como distribuidora de recursos, ampliando seu alcance e influência.

A American Legislative Exchange Council (ALEC), uma organização que reúne legisladores estaduais, líderes corporativos e ativistas conservadores, desempenha um papel crucial nesse esquema. Durante o States and Nation Policy Summit anual, lobistas e operadores políticos apresentaram em detalhes a estratégia para estabelecer leis estaduais que blindariam as empresas de petróleo e gás de ações judiciais. A ALEC, historicamente conhecida por sua influência na elaboração de legislação favorável aos interesses corporativos, tornou-se um canal fundamental para a disseminação dessas leis.

Para ilustrar a complexidade da rede de influência, considere o caso de Consumers’ Research, uma organização que recebeu mais de 65% de seu financiamento de um fundo obscuro chamado Donors Trust. A 85 Fund, por sua vez, contribuiu com mais de 67 milhões de dólares para o Donors Trust em 2024. Além disso, Consumers’ Research contratou a CRC Advisors, uma empresa de consultoria Política e corporativa ligada a Leo, por mais de 670 mil dólares no mesmo período.

Em meio a essa teia de relacionamentos financeiros e políticos, as comunidades que já sofrem os impactos das mudanças climáticas – secas prolongadas, inundações devastadoras e incêndios florestais cada vez mais frequentes – veem suas esperanças de justiça se esvaírem. Em Boulder, Colorado, por exemplo, a prefeitura processou a Exxon Mobil e a Suncor Energy, acusando-as de enganar o público sobre os perigos de seus produtos e de criar um problema público ao alterar o meio ambiente. Mas, com a disseminação dessas novas leis, a possibilidade de obter reparação por esses danos se torna cada vez mais remota.

A manobra, que se assemelha a um resgate financeiro para a indústria, revela a extensão a que os interesses corporativos estão dispostos a ir para evitar a responsabilização por suas ações. O legado de Leonard Leo, que já se estendeu à Suprema Corte, agora ameaça corroer os pilares da justiça ambiental em todo o país.

A ironia é cruel: enquanto Boulder se afoga em secas e incêndios intensificados pelas mudanças climáticas, o argumento é que a cidade, e outras como ela, precisam ser protegidas da influência, supostamente, de ideias “woke”. A estratégia, no entanto, é clara: usar a influência Política e o poder econômico para garantir que as empresas de petróleo e gás continuem a lucrar, mesmo à custa do futuro do planeta.