Hedge funds aproveitam o caos tarifário: marcas de moda vendem direitos a receber

O Supremo Tribunal dos EUA derrubou as tarifas de Trump em fevereiro, mas a promessa de reembolso transformou-se em um labirinto financeiro. Marcas de moda, que pagaram bilhões em impostos de importação, estão agora vendendo seus direitos a esses reembolsos – a preços descontados – para hedge funds, em um mercado emergente e surpreendente.

A corrida para a liquidez em tempos de incerteza

Enquanto autoridades federais demoram a definir como os reembolsos de aproximadamente US$ 166 bilhões serão processados, algumas empresas de moda enfrentam uma decisão crítica: aceitar dinheiro agora, com desconto, ou esperar – sem garantias – pelo pagamento integral. A solução, inesperada, é um mercado secundário que se formou nas sombras, impulsionado por fundos de hedge que oferecem dinheiro em troca de reivindicações de reembolso de tarifas. Nomes como King Street Capital e Oppenheimer são os mais citados nos bastidores dessas transações, com bancos atuando como facilitadores, conectando compradores e vendedores sem assumir o risco.

A situação é complexa, como observa Tom Janover, sócio do Herbert Smith Freehills Kramer: “As motivações de cada empresa que possui uma reivindicação são diferentes, e é por isso que essas transações exigem negociação individual”. Surpreendentemente, a lista de vendedores é mais variada do que se imaginava inicialmente. Empresas maiores, com departamentos de tesouraria sofisticados, estão participando ao lado de empresas menores, unidas pela necessidade de liquidez e pelo reconhecimento de que esperar pelo governo pode ser arriscado.

Neil Saunders, diretor de varejo da GlobalData, resume a lógica: “Ninguém realmente sabe como será o processo de reembolso, quanto tempo levará ou se realmente acontecerá. É uma mentalidade de ‘um pássaro na mão vale mais que dois voando’.” A estratégia, familiar para a indústria que lida com factoring, busca converter um recebível futuro em dinheiro imediato.

Cape e a promessa de junho, com respaldo jurídico

Cape e a promessa de junho, com respaldo jurídico

Em 31 de março, Brandon Lord, diretor executivo de programas de comércio da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP), declarou que o sistema de processamento de reembolsos – CAPE (Consolidated Administration and Processing of Entries) – está no caminho certo para começar a emitir reembolsos em junho. Embora 85% do componente do portal de reivindicações esteja completo, apenas 60% do componente de processamento em massa está finalizado. As fases subsequentes, que cobrirão os 37% restantes das importações, não possuem um cronograma definido.

Mesmo para as importações elegíveis, o CBP se comprometeu com um prazo de processamento de 45 dias após a aceitação da declaração CAPE, o que significa que o pagamento não será imediato. A situação permanece fluida, especialmente após uma decisão da Justiça que expandiu o escopo de potenciais reembolsos, e com o Departamento de Justiça ainda avaliando se irá recorrer.

O preço da incerteza e o caso untuckit

O preço da incerteza e o caso untuckit

O mercado de reivindicações tarifárias começou a se formar no outono passado, logo após o início dos primeiros processos judiciais contra as tarifas de Trump. As ofertas iniciais eram altamente especulativas, chegando a 15 centavos por dólar, mas com o avanço do caso na Suprema Corte, os preços subiram para 25 a 30 centavos, depois 50, e para 75 após a decisão. Atualmente, os vendedores podem esperar receber cerca de 80 centavos por dólar. A Aaron Sanandres, co-fundador e CEO da Untuckit, observa: “Já fomos abordados várias vezes por empresas interessadas em comprar nosso reembolso de tarifas IEEPA – mesmo antes da decisão da Suprema Corte. É sempre interessante ver como o mercado está valorizando esses recebíveis, pois dá uma ideia do tempo esperado para a coleta.” A Untuckit ainda não fechou um acordo, mas a observação de Sanandres resume a lógica do mercado: o preço reflete menos o valor intrínseco do que o tempo.

Um mercado familiar para a moda, mas com implicações jurídicas

A indústria da moda está familiarizada com o factoring, a prática de vender contas a receber para obter liquidez imediata. A negociação de reivindicações de tarifas de importação é uma extensão lógica dessa prática. “A liquidez é sempre melhor”, afirma Eric Fisch, do HSBC. “Ter liquidez coloca você em uma posição competitiva mais forte.” Gary Wassner, CEO da Hilldun, destaca a importância do fluxo de caixa: “Todos os custos de design e produção são incorridos meses antes da mercadoria ser enviada aos varejistas. Os reembolsos de tarifas levarão muito tempo para serem recebidos – talvez dois anos, se forem pagos de volta.”

Um novo complicador surgiu com o arquivamento de processos na Justiça: as importações cobertas por protestos estão explicitamente excluídas da Fase 1. A defesa de protestos como uma forma de proteger os direitos dos importadores pode exigir uma reavaliação das estratégias de protesto. Além disso, as divulgações de financiamento de litígio em processos judiciais adicionam uma nova camada de transparência. A questão das ações coletivas contra marcas que aumentaram os preços em resposta às tarifas também está em aberto, com a possibilidade de que os consumidores recebam reembolso se as tarifas forem devolvidas.

A saga das tarifas de importação continua a se desenrolar, com o mercado de reivindicações tarifárias servindo como um barômetro da incerteza e da necessidade de liquidez na indústria da moda. A rapidez com que os reembolsos serão processados determinará o futuro desse mercado e, possivelmente, o destino de muitas empresas.

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