Lykke li abandona a 'deusa do desespero' e aterra com álbum de 'rebeldia' e sombras

Em meio aos ensaios frenéticos para Coachella, a cantora sueca Lykke Li revelou uma faceta surpreendente: a decisão de abandonar a persona conhecida como ‘Deusa do Desespero’ e mergulhar em um projeto musical radicalmente diferente.

Uma jornada de brutalidade e existencialismo

Uma jornada de brutalidade e existencialismo

A artista, que conquistou o indie com ‘Youth Novels’ e ascendeu ao mainstream com ‘I Follow Rivers’, admite a angústia de reafirmar sua voz no palco. ‘É como entrar em um ringue de boxe brutal’, explica, ‘sem depender de aplausos ou admiração. É preciso lutar por cada nota.’

O novo álbum, ‘The Afterparty’, surge como resultado dessa confrontação. Longe das melodias melancólicas que a consagraram, a faixa sonora se apresenta como uma explosão maximalista, com uma orquestra de 17 cordas, inúmeros bateristas e vocalistas. ‘Queria fazer algo super exagerado, uma overdose de instrumentos’, confessa Li, revelando uma rebeldia contra o álbum anterior, marcado pela autenticidade crua e pelos ruídos do quarto de sua casa em Los Angeles.

A mudança estética se reflete na letra, que abandona a busca por redenção e abraça um olhar filosófico e investigativo. ‘Baby hold on tight / Até o fim amargo / Se tivermos sorte / Teremos sorte novamente’, canta ‘Lucky Again’, um prenúncio da postura mais aberta ao amor, mas sem a obsessão juvenil que a caracterizou. ‘Quando éramos jovens, tínhamos a crença de que alguém poderia nos salvar’, reflete Li, ‘uma ideia romântica e equivocada de salvação.’

O conceito do ‘Afterparty’ – um espaço de arrependimentos e liberdade desenfreada – ecoa a experiência de Li como mãe. ‘A maternidade e a arte eram incompatíveis’, admite, ‘a transição exigia a criação de uma alter ego masculino e hedonista. Uma dualidade tão forte que, ao ouvir ‘The Afterparty’ agora, me pergunto como consegui criar algo tão diferente.’

O álbum, gravado em Estocolmo com uma orquestra sinfônica, é um reflexo do melhor momento musical de Li, durante as performances com o Swedish Radio Symphonics quando ela estava grávida. A inspiração veio do livro ‘The Baby on the Fire Escape’, que explora a obra de artistas mulheres como Doris Lessing e Louise Bourgeois. ‘Como mãe, não tenho nada a ver com quem sou no palco’, afirma com firmeza, buscando separar as duas identidades.

‘Sick of Love’, a terceira single, captura a sensação de desilusão após a euforia da festa, enquanto ‘The Afterparty’ se apresenta como um mergulho na introspecção e na busca por um novo começo. Lykke Li, longe de se render ao inevitável, se reinventa – e aposta em uma nova era, sem garantias, mas com a certeza de que a Música, para ela, continua sendo uma batalha intransigente.