Kneecap: do pub irlandês à luta por uma voz (e um futuro)

Em meio a uma cerveja escura e a conversa animada em um pub de Belfast, o grupo de rap irlandês Kneecap – Móglaí Bap, Mo Chara e DJ Próvaí – nos oferece um mergulho profundo na história da Irlanda, temperado com a irreverência que os consagrou. O trio, conhecido por sua energia contagiante e letras em irlandês, enfrenta agora uma turbulência que se estende muito além das fronteiras da Ilha Esmeralda.

Um fenian no século xxi: reivindicando a herança

O novo álbum, intitulado “Fenian”, não é apenas uma coleção de músicas; é uma declaração de princípios. O termo “Fenian”, outrora usado para estigmatizar a população irlandesa, agora se torna um grito de resistência. “Era usado para nos envergonhar, para nos fazer parecer bárbaros, como se fôssemos pessoas da floresta com lanças”, explica Móglaí Bap, enquanto a espuma da cerveja se mistura com a paixão em suas palavras. “Agora estamos tentando colocar nossa própria marca nisso, e este álbum faz parte da retomada dessa herança.”

Mas a jornada até aqui não foi fácil. Após uma performance marcante no Coachella 2025, onde expressaram apoio à Palestina, os membros do Kneecap perderam seus patrocínios de vistos nos Estados Unidos, forçando o cancelamento de uma turnê ambiciosa. A situação se agravou quando um vídeo de Mo Chara segurando uma bandeira controversa gerou indignação, culminando em um processo judicial que, felizmente, foi arquivado.

A solidariedade com palestina: um reflexo da história irlandesa

A solidariedade com palestina: um reflexo da história irlandesa

O apoio do Kneecap à Palestina não é um capricho ideológico, mas sim um reflexo profundo da própria história da Irlanda. “Temos quase 900 anos de colonialismo nas costas”, afirma Mo Chara, com a convicção de quem carrega o peso de séculos de luta. “Por isso, não é surpresa que apoiemos todos os povos oprimidos ao redor do mundo.” A conexão entre a situação na Palestina e a experiência irlandesa é evidente, e o grupo não hesita em denunciar as mesmas táticas de opressão utilizadas em ambos os contextos. A recente menção do prefeito de Nova York Zohran Mamdani a essa ligação durante seu discurso no Dia de São Patrício reforça a legitimidade da posição do Kneecap.

De comédia à consciência política: a evolução do grupo

De comédia à consciência política: a evolução do grupo

A ascensão do Kneecap ao reconhecimento internacional começou com um filme de comédia que narra a origem do grupo, com a participação de Michael Fassbender. O filme, premiado em Sundance, demonstrou o potencial do grupo para atrair um público global interessado na preservação da língua irlandesa. Com o novo álbum, o Kneecap busca aprimorar seu som, trabalhando com produtores renomados como Dan Carey, que já colaborou com Black Midi e Wet Leg. O single “Smugglers & Scholars” exemplifica essa evolução, combinando letras inteligentes e críticas com uma sonoridade moderna e impactante.

Apesar das dificuldades, o grupo permanece firme em seus ideais. Diante da tentativa de Turning Point USA de recrutar estudantes na Irlanda do Norte, Móglaí Bap destaca a falta de genuinidade na ideologia conservadora, afirmando que o grupo se orgulha de sua postura e está pronto para enfrentar qualquer desafio. A resistência, afinal, está no DNA do Fenian.

“Não é sobre nós”, conclui Móglaí Bap, com um olhar fixo no horizonte. “É sobre aqueles que lutam por sua liberdade, por sua dignidade, por um futuro onde a justiça prevaleça. E nós, Kneecap, estamos aqui para amplificar suas vozes.”