Moda masculina em shanghai: cores vibrantes e desafios no mercado chinês

Saiões verdes vibrantes, ombreiras peludas e sapatos Oxford com fecho de touro: essa foi a proposta ousada do estilista Shushu Tong para o desfile de Semana de Moda de Xangai. Mas, por trás da experimentação, não há uma invasão no mercado masculino, mas sim uma releitura divertida das peças femininas, como reconhece o próprio designer.

A inversão de papéis e a realidade do mercado chinês

‘Não é Moda masculina, é garotos usando roupas de meninas’, explica Shushu Lei, o criador da marca. ‘A vertente masculina ainda é pequena.’ A estratégia, comum em diversas marcas chinesas, reside na possibilidade de atrair um público mais amplo, sem comprometer as margens de lucro. Enquanto os consumidores masculinos buscam conforto em marcas esportivas globais ou designers locais menos arrojados, o mercado de Moda masculina chinês enfrenta um período de relativo declínio.

Laura Darmon, da ENG Concept Store, descreve a situação: ‘É um momento difícil para a Moda masculina. As marcas europeias, como Our Legacy, dominam o mercado, dificultando a competição para as etiquetas locais.’

A ascensão do lifestyle e o desaparecimento do streetwear

A ascensão do lifestyle e o desaparecimento do streetwear

A dinâmica do mercado evoluiu drasticamente. O streetwear, outrora a porta de entrada para a Moda masculina, cede espaço ao leisurewear e ao gorpcore. As denominações ‘Arcteryx’, ‘Salomon’ e ‘Lululemon’ se tornaram sinônimos de status entre a classe média chinesa. A busca por outerwear e marcas de aventura impulsiona as vendas, transformando o foco de muitos negócios.

Zemira Xu, da Tube Showroom, observa a mudança: ‘Os homens estão buscando alternativas para o outerwear e marcas de aventura. A demanda por roupas esportivas e de lifestyle cresce.’ A gigante Bosideng, conhecida por suas roupas de inverno, investiu no designer Kim Jones para fortalecer sua linha masculina, procurando se adaptar às novas prioridades dos consumidores.

Garçon by Garçon, por exemplo, tem se destacado nas categorias de jaquetas e casacos, impulsionadas pela demanda por peças versáteis e fáceis de combinar. ‘Os homens preferem peças que se adaptam a diferentes looks’, afirma Dayun Tang, o criador da marca.

A desilusão do homem tradicional e a busca por novas estratégias

A desilusão do homem tradicional e a busca por novas estratégias

Para as linhas masculinas tradicionais, a incerteza do mercado é um obstáculo. Com baixas taxas de retorno sobre o investimento, muitas marcas chinesas têm migrado para o segmento feminino ou apostado em funcionalidade e desempenho. Li Gong, da 8ON8, relata: ‘Os homens chineses tendem a buscar marcas esportivas para suas roupas, além do vestuário para o dia a dia.’

A 8ON8, que inicialmente focava em alfaiataria, abandonou a moda masculina em favor do feminino, adaptando os tamanhos para atender às necessidades das mulheres. Essa estratégia, embora bem-sucedida no mercado internacional, não gerou o impacto esperado na China, onde a distinção entre as linhas masculina e feminina se tornou mais evidente.

‘É preciso entender as particularidades do mercado chinês’, ressalta Benny Zhu, da Element, uma boutique multimarcas que combina marcas internacionais com designers japoneses e outdoor. ‘Os clientes chineses valorizam a praticidade, a qualidade do tecido, os detalhes e o acabamento.’

Para atrair a atenção masculina, Xu recomenda que as marcas invistam em ações que mostrem o processo de produção, a filosofia da marca e a qualidade dos materiais. ‘Os homens são mais como discípulos de marca’, afirma. ‘Eles querem entender a ideia por trás da roupa, não apenas o visual.’

A Maison Margiela, que realizou seu primeiro desfile fora de Paris em Xangai, e a Ralph Lauren, que abriu uma loja em Chengdu, exemplificam o interesse crescente de marcas globais no mercado chinês. Mesmo assim, a conquista do consumidor masculino exige cautela e conhecimento do mercado local.

Guillaume Ruby, da Federação Francesa da Moda, destaca que marcas com propostas inovadoras têm mais facilidade em se estabelecer em mercados asiáticos. ‘Em Europa, leva mais tempo para que as marcas ganhem reconhecimento’, comenta.

Apesar dos desafios, o mercado chinês continua a atrair investimentos. A Element, com sua base de clientes predominantemente masculina, demonstra a viabilidade de um nicho de mercado focado em produtos de qualidade e com foco no estilo de vida. ‘É preciso ter um entendimento profundo do mercado chinês’, alerta Zhu. ‘O ambiente, o clima e os hábitos de consumo variam muito de uma cidade para outra.’