Ia e sustentabilidade: uma relação complexa e urgente

A promessa da inteligência artificial (IA) como ferramenta para otimizar a sustentabilidade na indústria da Moda soa como uma tábua de salvação para equipes sobrecarregadas. Mas, por trás da eficiência aparente, esconde-se um desafio complexo: o impacto ambiental da própria IA, um detalhe que, por ora, permanece em grande parte desconhecido.

A corrida contra o tempo: equipes de sustentabilidade sob pressão

Equipes de sustentabilidade em grandes marcas enfrentam uma avalanche de tarefas: relatórios, cumprimento de normas, estratégias de sourcing responsável e a busca incessante por dados em fontes diversas. Mesmo em empresas multimilionárias, essas equipes são frequentemente reduzidas a poucos profissionais, dedicados a planilhas em vez de implementar as estratégias ambiciosas que os motivaram a entrar nessa área.

É nesse cenário que a IA surge como uma tentação poderosa. Insiders do setor afirmam que a automação de relatórios, a melhoria da qualidade dos dados, a reestruturação para diferentes fontes e a verificação da rastreabilidade são apenas alguns dos benefícios que a IA pode trazer para as equipes de sustentabilidade e seus parceiros na cadeia de suprimentos. Annie Agle, vice-presidente de impacto e sustentabilidade da Cotopaxi, destaca que a IA permite que as equipes se concentrem mais no planejamento estratégico do que no cumprimento burocrático.

Mas há um porém crucial. O impacto real do uso da IA nas organizações ainda é um território nebuloso. Sem um acompanhamento e medição rigorosos, as marcas correm o risco de, inadvertidamente, aumentar sua pegada ambiental com a própria tecnologia que buscam para reduzi-la.

H&m, kering e everlane: estratégias divergentes em um cenário em evolução

H&m, kering e everlane: estratégias divergentes em um cenário em evolução

Marcas como H&M e Kering já incorporaram a IA em diversas áreas de suas operações. A H&M utiliza a IA em toda a cadeia de suprimentos, logística, marketing, vendas e experiência do cliente, visando produzir apenas o que é vendido, otimizando a quantidade de produtos, a escolha de mercados e o momento ideal para as vendas. O grupo Kering, proprietário de marcas como Gucci e Balenciaga, nomeou Pierre Houlès como diretor de digital, IA e TI, sinalizando a importância estratégica da tecnologia. Ambas as empresas utilizam a IA para prever a demanda, otimizar o estoque e automatizar relatórios, conforme Marie-Claire Daveu, diretora de sustentabilidade e assuntos institucionais do Kering, explica.

Outras marcas, como a Everlane, estão apenas começando a explorar o potencial da IA, com foco em otimizar processos internos e tarefas administrativas. Alfred Chang, CEO da Everlane, enfatiza que a adoção da IA se torna uma questão de competitividade comercial.

O dilema energético: a pegada oculta da ia

O dilema energético: a pegada oculta da ia

Apesar dos benefícios evidentes, a crescente demanda por energia e água – essencial para o resfriamento de data centers – é uma preocupação crescente. Um estudo publicado na Nature revelou que, no ritmo atual, os servidores de IA nos Estados Unidos gerarão 24 a 44 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, equivalente a adicionar 5 a 10 milhões de carros nas estradas. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que os data centers, que abrigam a infraestrutura de TI necessária para treinar e fornecer serviços de IA, já representam 1,5% do consumo global de energia e devem chegar a 3% até 2030.

A contabilidade do impacto da IA a nível organizacional é complexa, como aponta Annie Agle da Cotopaxi. Uma medida urgente é a padronização global, como a proposta pela Coalizão para IA Sustentável e as diretrizes da União Internacional de Telecomunicações (UIT).

Inovação e eficiência: uma nova era para a moda?

Empresas como a Lectra oferecem soluções de IA que podem ajudar as marcas de Moda a atingir suas metas de sustentabilidade, como a verificação de dados de rastreabilidade e a otimização do corte de tecidos para reduzir o desperdício. A oportunidade, segundo o vice-CEO da Lectra, Maximilien Abadie, reside em encurtar o tempo de lançamento de produtos, um fator crucial para a competitividade em um mercado volátil.

A Mango, por exemplo, desenvolveu 15 plataformas de aprendizado de máquina internas, incluindo a assistente de IA Iris, que responde a mais de 7,5 milhões de consultas por ano. A empresa também utiliza IA generativa para criar imagens de campanhas e coleções, demonstrando a crescente integração da tecnologia em diversas áreas do negócio.

A jornada da indústria da Moda em direção a uma IA mais sustentável está apenas começando. A chave para o sucesso reside na transparência, na medição rigorosa e na busca por soluções inovadoras que minimizem o impacto ambiental da própria tecnologia. Afinal, a sustentabilidade não pode ser conquistada à custa de um novo tipo de poluição digital.

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