Agricultura regenerativa: promessa e dúvidas em meio à busca por soluções climáticas
A agricultura regenerativa surge como uma alternativa promissora para mitigar as emissões de gases de efeito estufa e restaurar a saúde do solo, mas a falta de dados concretos sobre seus resultados reais gera debates acalorados. A crescente busca por práticas agrícolas sustentáveis tem colocado a agricultura regenerativa no centro das atenções, mas especialistas alertam para a necessidade de mais pesquisas robustas antes de se consolidar como solução definitiva.
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Agricultura regenerativa: promessas e desafios
nA agricultura regenerativa é definida como um conjunto de práticas agrícolas que visam a mitigação das mudanças climáticas e a restauração da saúde do solo, da biodiversidade e dos ciclos hídricos. Ela é apresentada como uma solução para a degradação das terras agrícolas e a agricultura intensiva em produtos químicos. No entanto, apesar do entusiasmo, a ausência de dados consistentes sobre a eficácia dessas práticas tem gerado questionamentos no meio da sustentabilidade.
n“A agricultura regenerativa pertence ao departamento de filosofia, não ao departamento de agricultura”, afirma Richard Eckard, professor da Universidade de Melbourne. Ele ressalta que, apesar das alegações dos agricultores regenerativos, a evidência científica que as sustenta ainda é limitada.
nUm dos principais obstáculos para a avaliação da agricultura regenerativa é a própria definição do termo, que é amplamente interpretada e dificulta a coleta de dados comparáveis. Pesquisadores tendem a isolar variáveis mensuráveis, em vez de avaliar sistemas agrícolas completos. A agricultura regenerativa, por sua natureza holística, desafia essa abordagem.
nO estudo 1,000 Farms, liderado pelo agroecologista e cientista Jonathan Lundgren, busca preencher essa lacuna. Durante quatro anos, a equipe coletou dados de mais de 1.700 propriedades agrícolas, comparando sistemas regenerativos e convencionais em relação à biodiversidade, ciclos hídricos, nutrição do solo, poluição, lucratividade e bem-estar do agricultor. A pesquisa, financiada pela Rockefeller Foundation, se destaca por sua abordagem de sistema integral, avaliando múltiplos elementos simultaneamente.
nOs resultados preliminares do estudo mostram que terras agrícolas regenerativas apresentam solos mais saudáveis, com maior concentração de matéria orgânica e diversidade de microrganismos. O estudo revelou que o biomassa microbiana total e a abundância bacteriana foram cerca de 60% maiores em solos regenerativos, enquanto a biomassa fúngica quase triplicou. A pesquisa também aponta para um aumento significativo na diversidade de espécies de aves, insetos e plantas em propriedades regenerativas.
nA captura de carbono é outra área de grande interesse. Embora a ciência por trás da captura de carbono em solos e plantas seja relativamente bem estabelecida, a taxa e a durabilidade do sequestro de carbono ainda são objeto de debate. Estudos sugerem que os ganhos mais significativos ocorrem nos primeiros anos de transição para a agricultura regenerativa, mas a estabilização do carbono no solo pode levar décadas. Mark Wootton e Eve Kantor, agricultores da Jigsaw Farms, na Austrália, demonstraram que o solo e as árvores plantadas em suas terras sequestraram carbono suficiente para compensar as emissões da produção de lã, carneiro e gado.
nA mensuração precisa do carbono no solo ainda apresenta desafios, com variações significativas mesmo em pequenas distâncias. Essa incerteza dificulta a valorização do carbono em mercados de carbono, um aspecto que gera preocupação entre os agricultores.
nPara Jonathan Lundgren, a observação direta das mudanças no campo é tão valiosa quanto os instrumentos científicos.