Passarelas refletem obsessão por magreza: inclusão de tamanhos despenca
Três anos após o lançamento do relatório Vogue Business sobre inclusão de tamanhos, a realidade é alarmante: a moda, em vez de abraçar a diversidade corporal, parece ter retornado a uma obsessão por padrões de magreza, com implicações preocupantes para a autoestima e o consumo.

A volta da silhueta única nas passarelas
O relatório revelou um cenário desanimador: a proporção de modelos plus-size (tamanho 14+) nas passarelas atingiu o ponto mais baixo em três anos, caindo para apenas 0,3%. Paralelamente, a representação de modelos de tamanho médio (6-12) também sofreu uma queda significativa, de 3,8% para 2,1%. O que antes era considerado um avanço, mesmo que modesto, agora se mostra como um breve desvio em uma trajetória de retrocesso.
A situação é ainda mais crítica se considerarmos que a maioria das mulheres brasileiras veste tamanhos entre 16 e 18, o que as coloca na categoria plus-size. A persistência de passarelas dominadas por modelos de tamanhos 0 a 4, que representam uma minoria da população, perpetua um ideal de beleza irrealista e exclui a grande maioria das consumidoras.
O que ninguém conta é que, ao mesmo tempo em que as marcas se dizem comprometidas com a diversidade, a prática demonstra o contrário. A tokenização, com a inclusão esporádica de uma ou duas modelos plus-size, não se traduz em uma oferta real de roupas para esses corpos. Marcas que afirmam ter peças em tamanhos maiores em seus sites frequentemente não as disponibilizam nas lojas físicas, como demonstrou a investigação realizada por Isabella Otto em lojas de Bond Street, Londres.
A pesquisa de Abisola Omole, a ‘Abi Marvel’, que explora a dificuldade de encontrar roupas em tamanhos maiores em lojas de luxo, lança luz sobre essa disparidade. Ela, que veste tamanho 16-18, precisa agendar horários nas lojas e insistir para que tenham à disposição uma variedade de peças em seu tamanho, o que expõe a falta de preparo e a invisibilidade das consumidoras plus-size no mercado de luxo.
A crescente obsessão por corpos cada vez mais magros, impulsionada por tendências como o ‘lookmaxxing’ e a influência de dietas restritivas, parece ter levado as marcas a priorizar a estética da magreza em detrimento da inclusão e da representatividade.
Apesar dos esforços do relatório Vogue Business para destacar a importância da inclusão de tamanhos, a resposta das marcas tem sido, em grande parte, evasiva. A falta de transparência e a resistência em oferecer opções para corpos diversos demonstram uma falta de compromisso genuíno com a diversidade e a inclusão.
Em meio a esse cenário, a pressão para se adequar a padrões de beleza irreais se intensifica. Uma pesquisa recente revelou que quase metade dos consumidores brasileiros sente pressão para perder peso, e a dificuldade em encontrar roupas que sirvam bem é apontada como um dos principais fatores que contribuem para essa pressão.
A persistência de um modelo de negócio que privilegia a magreza em detrimento da inclusão é insustentável. É hora de que as marcas reconheçam a importância de atender a todas as consumidoras, independentemente de seu tamanho, e de que a moda se torne um espaço de celebração da diversidade corporal e da autoestima.
A cifra fala por si só: a exclusão de corpos diversos das passarelas e das lojas não é apenas uma questão estética, mas um reflexo de uma indústria que precisa urgentemente se reconectar com a realidade e com as necessidades de suas consumidoras.
