Passarelas ignoram a realidade: inclusão de plus size é ilusão?
As semanas de moda internacionais voltaram a exibir modelos plus size nas passarelas da Balenciaga e Givenchy, reacendendo a esperança de uma indústria mais inclusiva. Mas, por trás do brilho das luzes e da estética impecável, a realidade é bem mais sombria: a representatividade de corpos diversos continua marginalizada e, em alguns casos, até retrocedeu.
Números frios revelam a desilusão
Uma análise rigorosa da Vogue Business revela que, das 7.817 propostas apresentadas em 182 desfiles para a temporada Outono/Inverno 2026, apenas 0,3% foram plus size (tamanho 14+). Um contraste gritante com os 0,9% da temporada anterior, o menor índice registrado nos últimos três anos. O quadro se repete em Nova York (0,4%) e Milão (0,1%), enquanto Paris ostenta o pior desempenho, com apenas 0,1% de representatividade plus size. A capital francesa, outrora sinônimo de vanguarda, demonstra uma preocupante falta de compromisso com a diversidade corporal.
Chloe Rosolek, renomada diretora de elenco, aponta o dedo para as marcas: “Há muitas modelos plus size prontas para desfilar, mas a decisão final reside nas marcas.” Tiffany Hsu, chief buying officer da Mytheresa, complementa: “A gama de tamanhos disponibilizada pelos fornecedores atacadistas ainda é o principal limitador.” A discrepância entre o que se vê na passarela e o que está disponível para compra é, portanto, uma questão sistêmica.

O marketing engana, o guarda-roupa não
A ascensão da influenciadora Remi Bader, que viralizou ao compartilhar “hauls” de roupas realistas e discutir abertamente sobre imagem corporal, é um testemunho da demanda reprimida por inclusão. Bader, que viajou de Nova York para Londres para prestigiar desfiles de Karoline Vitto e Di Petsa, lamenta: “É frustrante ver marcas que exibem modelos plus size na passarela, mas não oferecem os mesmos tamanhos para venda.” A fidelidade do consumidor, especialmente o público plus size, é conquistada com autenticidade, não com aparências.
Christian Siriano, que se destaca por sua inclusão em Nova York, resume a questão: “Celebrar corpos diversos na passarela é um começo, mas a verdadeira prova de compromisso está na produção. Se você acredita na inclusão, ela precisa existir em todos os aspectos do negócio.” A designer Ester Manas, da marca parisiense de mesmo nome, ressalta a importância de uma comunicação transparente: “Criar um universo em torno da inclusão de tamanhos é fundamental para que as clientes se sintam acolhidas.”
A mudança de hábitos exige investimento em modelagem, produção e marketing ao longo de várias temporadas. Uma abordagem gradual, com testes de produtos e colaborações estratégicas, pode ser mais sustentável. A parceria de Karoline Vitto com a Pull & Bear, por exemplo, demonstra que a inclusão pode ser viável em escala, desde que haja um compromisso genuíno com a diversidade.
Enquanto a indústria da moda se debate entre a estética e a realidade, o consumidor busca autenticidade e representatividade. A promessa de um futuro mais inclusivo depende de marcas que não se limitem a exibir modelos plus size na passarela, mas que se comprometam a oferecer roupas que se ajustem a todos os corpos, sem exceção. O futuro da moda é diverso, e a indústria precisa se adequar a essa nova ordem, ou corre o risco de se tornar irrelevante para uma parcela crescente da população.
