O fotógrafo que preferia vender sapatos: a história de neil kirk
Neil Kirk, o mestre por trás de algumas das imagens mais icônicas da moda dos anos 80 e 90, tinha um peculiar senso de humor e uma humildade surpreendente. Quando perguntado sobre sua profissão, ele respondia: “Sou vendedor de sapatos”. Uma revelação que, segundo sua esposa, Vivienne Kirk, estilista renomada, era dita com um sorriso e completa sinceridade.

Um legado imortalizado em 'vogue: the supermodel years'
Agora, o talento singular de Kirk ressurge em 'Vogue: The Supermodel Years', um livro que celebra sua colaboração com a revista, abrangendo suas contribuições para praticamente todas as edições. O livro é uma ode à sua capacidade de capturar o movimento e a emoção, transformando modelos em personagens vibrantes e reais. Organizar um volume com tantas imagens, sob a direção artística impecável de Rita Sowins, foi um desafio hercúleo, mas a ex-executiva de publicação Liz Rees-Jones, juntamente com Kirk e Webb, transformou o impossível em realidade.
A resposta de Kirk sobre vender sapatos revela muito sobre sua personalidade: um profissional incrivelmente divertido, rápido e dedicado, mas que rejeitava a ideia de se autopromover. E essa modestia, irônica, contrasta com o fato de que seu trabalho era, essencialmente, sobre movimento – sobre pessoas em pé, caminhando, correndo. Kirk parecia florescer ao fotografar modelos andando de costas, capturando o instante exato em que a imagem se formava.
Em um livro repleto de visuais marcantes, Kirk elevou a moda a uma nova dimensão. Modelos com penteados elaborados, joias cintilantes e ternos poderosos pareciam descontraídas, como se estivessem usando jeans e camisetas – um exemplo perfeito é a Polaroid de Cindy Crawford, confiante e atlética, saltando em frente às lentes. Suas imagens retratavam um mundo em movimento constante: modelos atravessando a Holborn Viaduct em Londres, chamando táxis em Manhattan, dançando em Paris, ou zunindo em uma moto com um sorriso no rosto.
A contribuição de Kirk para a moda é inegável. Ele rompeu com a rigidez e a pose da fotografia de moda do século XX, oferecendo uma visão fresca e dinâmica, impulsionada pelo espírito feminista da época. Suas imagens celebravam a agência e as possibilidades das mulheres, um tema que ressoou profundamente com o público da Vogue, como relatou Robin Derrick, diretor de arte da British Vogue. “Eram as fotos de Neil que os leitores mais apreciavam”, disse Derrick. A habilidade de Kirk em vestir modelos com roupas do dia a dia e transformá-las em ícones de glamour era rara.
A trajetória de Kirk começou no final dos anos 70, após estudar medicina e história do cinema. Sua experiência como diretor de arte em Saatchi & Saatchi o levou a colaborar com nomes como Michael Roberts, e juntos se tornaram figuras centrais da efervescência criativa do pós-punk em Londres. Essa colaboração o conectou com designers como Antony Price e o levou a criar três capas de álbuns para Roxy Music. Sua visão abrangia todos os aspectos da imagem, a ponto de Elizabeth Tilberis, editora da British Vogue, considerá-lo para o cargo de estilista.
Vivienne Kirk atribui o talento do marido a sua paixão pelo cinema, revelando que ele criava “pequenos desenhos cinematográficos” para planejar o fluxo das histórias. Para Iain R. Webb, o que diferenciava Kirk era sua capacidade de capturar um momento fugaz, um instante entre o antes e o depois, com um toque cinematográfico.
Após décadas divididas entre Londres e Los Angeles, Kirk finalmente concordou em publicar um livro sobre seu trabalho em 2018. Infelizmente, ele nos deixou em 2022, mas Vivienne Kirk perseverou, encontrando caixas e mais caixas de imagens e negativos – incluindo um retrato raro de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren para a Vogue Italia – em sua garagem. Mais do que um tributo, o livro é uma declaração de amor e um reconhecimento tardio ao talento de um herói anônimo da moda. “É uma forma de mostrar a Neil”, conclui Vivienne Kirk, “e para que as pessoas percebam que ele realmente era um herói não reconhecido do mundo da moda.”