Desfiles de moda: a virada estratégica e o domínio asiático das tendências

A temporada de desfiles de outono/inverno revelou um cenário mais comedido e focado na moda, em contraste com a onda de mudanças de direção criativa do ciclo anterior. Com menos momentos de impacto explosivo e um calendário global mais congestionado, a visibilidade geral diminuiu, mas os grandes nomes continuaram a exercer influência significativa. A pergunta que fica é: como as marcas se adaptaram a essa nova realidade?

O valor da mídia impressa diminui, mas a influência persiste

De acordo com a Lefty e a Karla Otto, a temporada gerou US$ 755 milhões em valor de mídia impressa (EMV), representando uma queda de 14% em relação à primavera/verão de 2026 e uma diminuição de 1,3% em comparação com o outono/inverno de 2025. Paris manteve sua liderança em alcance nas redes sociais, com US$ 403,6 milhões em EMV, apesar de uma queda de 19% em relação à temporada passada. Os números refletem um período de realinhamento, onde a quantidade de posts e influenciadores diminuiu, mas a qualidade e o impacto estratégico se tornaram mais importantes.

Dior, como de costume, liderou o ranking geral, acumulando US$ 88 milhões em EMV no Instagram e US$ 51,6 milhões no Weibo, representando aproximadamente 22% do total. A força da marca foi impulsionada, mais uma vez, pelo talento asiático. Kornnaphat Sethratanapong (Orm), ator e modelo tailandês, liderou a temporada com US$ 21 milhões em EMV, seguido por Sirilak Kwong, ator tailandês-chinês (US$ 15,5 milhões) e Jisoo, do Blackpink (US$ 12,5 milhões). A fidelidade desses influenciadores a Dior demonstra a crescente importância do alinhamento de marca e talento.

Chanel: além da passarela, a experiência de compra

Chanel: além da passarela, a experiência de compra

Enquanto Chanel conquistou o segundo lugar com US$ 55,8 milhões em EMV, um aumento de 73% em relação ao ano anterior, o sucesso da marca foi impulsionado por algo além dos desfiles. A febre nas boutiques, com editores e figuras do setor disputando as novidades da coleção pronta para vestir, gerou conversas e engajamento massivo nas redes sociais. Hetty Mahlich, editora de moda, relata: “Era o assunto do momento. Todos trocavam mensagens, informando sobre as lojas e seus estoques. Era a conversa em todos os lugares.”, culminando em sua primeira compra de sapatos Chanel em uma loja física – um par de pumps de couro de jacaré verde-menta.

Milão brilha: um retorno à expectativa

Milão brilha: um retorno à expectativa

Milão se destacou como a cidade mais vibrante da temporada, registrando US$ 260,2 milhões em EMV, um aumento de 6% em relação à primavera/verão de 2026 e um salto impressionante de 37% em relação ao ano anterior. A estreia oficial de Demna na direção criativa da Gucci, precedida por um filme e um lookbook, gerou grande expectativa, resultando em US$ 54,5 milhões em EMV. Nomes como Emily Ratajkowski (US$ 1 milhão), Demi Moore (US$ 827 mil) e Georgina Rodríguez (US$ 4,6 milhões) contribuíram para a visibilidade do evento.

A ascensão do storytelling profundo

As marcas estão investindo em narrativas mais longas e aprofundadas para prolongar o impacto de suas coleções. No Dior, a entrevista com Bella Freud’s Fashion Neurosis, onde Jonathan Anderson desvendou as inspirações por trás da coleção, gerou US$ 938 mil em EMV apenas em seus canais pessoais. Substack e plataformas de vídeo como o YouTube, com um crescimento de 184% ano a ano, estão se tornando ferramentas essenciais para essa estratégia. Jenny Tsai, fundadora e CEO da WeArisma, observa: “O EMV continua sendo um importante indicador, mas o que estamos vendo agora é uma mudança na forma como esse valor é construído.”

Talento asiático domina o cenário e redefine parcerias

A influência asiática na moda consolidou-se, com talentos da Tailândia, Coreia do Sul e Filipinas liderando o ranking, respondendo por 42% do EMV total. Essa mudança reflete uma compreensão mais profunda das nuances culturais e um desejo de autenticidade por parte das marcas. Anna Ross, da Karla Otto, ressalta: “A parceria com talentos deve refletir os valores da marca. Não se trata apenas de alcance, mas de um alinhamento genuíno que enriquece a narrativa da marca.” O retorno de figuras globais como Madonna e Demi Moore reforça a importância das parcerias de longo prazo, demonstrando que a experiência e a lealdade permanecem valiosas no mundo da moda.

A temporada de desfiles de outono/inverno de 2026 não apenas revelou as tendências da próxima estação, mas também delineou uma nova era na indústria da moda, onde a estratégia, a autenticidade e o storytelling profundo são tão importantes quanto a própria passarela. O futuro da moda é asiático, mas também é profundamente humano e narrativo.

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