Obsessão e horror: artistas revelam o lado sombrio do fandom
A Cultura de fãs, outrora um território de paixão e devoção, está sendo revisitada por artistas que mergulham nas profundezas da obsessão, desvendando uma face mais sombria e perturbadora do fenômeno. Inspirados, em parte, pelo legado de Eminem, criativos exploram os limites da admiração, desvendando narrativas que transitam entre o romance idealizado e o terror psicológico.
Novos olhares sobre a estrelato e a obsessão
Jenny Tinghui Zhang, em seu aclamado romance Superfan, e Petra Collins, com a estreia de Star, são as mais recentes vozes a se juntarem a essa reflexão. Star, que chega aos cinemas no próximo mês, acompanha a ascensão meteórica de duas figuras musicais fictícias – Ashley, a estrela pop, e Siren8, um grupo de ídolos adolescentes – e a transformação gradual da admiração em obsessão, culminando em atos de violência. A obra, acompanhada de uma trilha sonora original, convida o público a uma imersão sensorial na realidade distorcida do fandom.
Em uma conversa exclusiva para a Vogue, Zhang e Collins compartilham suas perspectivas sobre a complexidade das relações entre artistas e fãs, o impacto da exposição midiática e o que significa ser mulher sob os holofotes. Zhang, jornalista com experiência na Folha de S. Paulo, destaca a velocidade e a intensidade da experiência de ser um fã na era digital, enquanto Collins, fotógrafa e cineasta, explora a natureza voyeurística da Cultura das celebridades e o impacto das redes sociais.
“Eu vim observando o mundo da música pelas lentes da câmera há 16 anos”,revela Collins. “Vi ícones nascerem e serem devorados. Presenciei a ascensão, os desmoronamentos, a força inabalável dos fandoms. Senti a necessidade de contar uma história que refletisse essa realidade, algo que fosse ao mesmo tempo cinematográfico e visceral.”

O espelho distorcido da internet
A artista explora a crescente invasão da privacidade e a criação de relações parasociais, onde a linha entre a realidade e a fantasia se torna cada vez mais tênue. “A internet nos dá acesso a um nível de intimidade artificial, que não é natural. Isso cria uma realidade insana e inatingível. Até eu, como criadora, me pego sentindo isso”, admite Collins.
A experiência de Collins, tanto como fotógrafa por trás das câmeras quanto como modelo e figura pública, oferece uma perspectiva única sobre o tema. “É quase psicodélico ter a capacidade de enxergar a situação sob diferentes ângulos – estando diante da câmera, atrás dela, e sendo uma figura pública. Sinto que posso contar a história de uma perspectiva quase divina, onde a narrativa pode fluir de qualquer ponto de vista.”
A obra também lança luz sobre o papel dos fãs e, em casos extremos, dos stalkers, desmistificando a ideia de que a obsessão é um fenômeno isolado. “Quero mostrar como esse sistema se alimenta de si mesmo, criando uma dinâmica perigosa que não beneficia ninguém. Não é uma questão de culpa, mas sim de uma estrutura que promove o medo em vez da arte.”
Collins destaca a importância de proteger as mulheres que atuam nesse universo, alertando para os perigos de uma Cultura que normaliza a invasão de privacidade e o assédio. “Estamos criando um sistema que não as protege”, lamenta a artista.
A reflexão sobre o impacto da internet na Cultura de fãs é central para a obra. Collins observa que, em décadas passadas, a distância entre o artista e o público era maior, permitindo uma separação mais clara entre a persona pública e a vida privada. “Hoje, a exposição é constante, a vigilância é implacável. Não há mais espaço para a fantasia, e isso se torna perigoso.”
Star não é apenas um retrato da obsessão, mas também uma crítica à Cultura da vigilância, à busca incessante por validação e à pressão implacável sobre as mulheres na indústria do entretenimento. É um convite à reflexão sobre os limites da admiração e as consequências de uma sociedade obcecada pela imagem.
