Mungiu desvenda a tensão em 'fjord': imigração, hostilidade e o silêncio do norte
Cristian Mungiu, o diretor que aterrorizou o mundo com ‘Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias’ em 2007, retorna com ‘Fjord’, um filme que não assombra, mas que incomoda. Uma imersão dura e urgente na fronteira da Noruega, onde a xenofobia se esconde por trás de paisagens de cartão postal.
A família gheorghiu e a busca por um novo lar
A trama acompanha a família Gheorghiu – Mihai, Lisbet e seus cinco filhos – que abandona a Romênia em busca de uma vida melhor na Noruega. A decisão de se mudar, após a morte da mãe de Mihai, os leva a uma comunidade aparentemente acolhedora, com casas de chocolate e vizinhos amigáveis. Mas, logo, a atmosfera idílica se revela carregada de tensões latentes.

A enfermeira e o silêncio da fé
Lisbet, a esposa de Mihai, é enfermeira e lida com a morte diária, mas se recusa a envolver-se com a religião no trabalho. Contudo, sua profunda fé a leva a oferecer conforto a uma mulher em luto, um gesto que perturba a ordem estabelecida. Mihai, por sua vez, um engenheiro aeronáutico que se adaptou ao mercado de TI, encontra resistência em seus colegas ao tocar hinos religiosos no piano.

A rebelião na infância
A chegada dos filhos de Mihai à nova escola desencadeia uma série de conflitos. A nova amiga, Noora, desperta a rebeldia nos mais velhos, Elia e Emmanuel, que se rebelam contra as restrições impostas pelos pais. A crescente hostilidade dos vizinhos, alimentada por preconceitos e desconfiança, intensifica a pressão sobre a família.
O ponto de ruptura e a intervenção social
A situação culmina em um episódio chocante: Elia é afastada da escola após uma acusação de violência. A intervenção das autoridades, motivada por supostos abusos, leva à remoção dos cinco filhos de Lisbet para lares de acolhimento. A cena da separação da criança do berço, com o filho no carro e os pais observando do outro lado do vidro, é um retrato visceral do desespero e da perda.
Perseguição religiosa? a luta pela família
Mihai, indignado, mobiliza a imprensa romena, acusando o caso de perseguição religiosa. A comunidade local se radicaliza, com protestos e discursos inflamados. ‘Fjord’ não oferece respostas fáceis, deixando o espectador confrontado com a complexidade das relações humanas, a fragilidade da tolerância e o peso das barreiras culturais. Um filme que se instala na mente e não a abandona facilmente. Uma obra-prima que exige reflexão e, sobretudo, empatia.