Memórias em preto e branco: a casa e o jardim que moldam a alma
O que resta dos lugares que habitamos? A pergunta ecoa na sensível obra de Devin Oktar Yalkin, Alone Together (One Last Trip Around the Garden), um mergulho poético na relação entre espaço e memória que nos convida a refletir sobre a fragilidade e a beleza do tempo.
Um olhar analítico sobre a intimidade
Yalkin, com uma trajetória que une a pesquisa científica à fotografia, apresenta um conjunto de imagens em preto e branco capturadas na casa de sua família em Brigantine, Nova Jersey. Não se trata de um inventário nostálgico, mas de uma investigação profunda sobre como os espaços domésticos se tornam extensões de nossas almas, carregando consigo as marcas de quem ali viveu. As fotografias, permeadas por uma melancolia delicada, evitam o sentimentalismo barato, optando por uma introspecção serena e reveladora.
O artista, que escolheu o preto e branco como sua linguagem primordial – “a forma mais honesta de ver”, como ele mesmo descreve –, despoja as cenas de cores que distraem, concentrando-se na luz, nos gestos e no peso emocional de cada instante. A escolha se aprofunda no processo de revelação, onde a imagem emerge lentamente, quase como a própria memória ganhando forma. É um ritmo lento, deliberado, que permite uma conexão mais intensa com o sujeito.

O jardim como metáfora da vida
O jardim, cultivado pelos pais do artista por quase 50 anos, emerge como um elemento central do projeto, transcendendo sua função física para se tornar uma metáfora da vida, do cuidado e da passagem do tempo. Yalkin narra como, com o afastamento da família, a experiência de estar ali se transformou, o tempo se comprimiu e a consciência da mudança se intensificou. A venda da casa, em 2024, conferiu ao jardim uma nova dimensão, um registro tangível de um legado construído ao longo de décadas.
A imagem do pai, levado em uma maca ao redor do jardim para uma última despedida – um momento que o artista não incluiu no livro por considerá-lo “demasiado imediato” – encapsula a essência da obra: a convergência da memória, do amor e da perda em um espaço carregado de significado. Mais do que um lugar, o jardim se torna um limiar, um portal para as profundezas da alma.
Alone Together não se limita a documentar um espaço físico, mas a explorar a maneira como as memórias se reconstroem e se transformam com o tempo. Yalkin não busca preservar a memória intacta, mas sim compreender como a casa existiu emocional e psicologicamente, o que significou para ele e sua família, e como esses significados persistem mesmo após a partida.
O processo de edição, lento e cuidadoso, exigiu um distanciamento que permitiu ao artista refinar a sequência das imagens, eliminando o excessivamente descritivo e valorizando o poder dos detalhes. A colaboração com Ali, que contribuiu para a seleção e organização das fotografias, foi crucial para a coesão final do projeto.
Em um mundo cada vez mais efêmero, a obra de Devin Oktar Yalkin nos lembra da importância de valorizar os laços que nos unem aos lugares que habitamos e às pessoas que amamos.
