Martha graham: a dança que ecoa no tempo e inspira o presente
Um século após sua estreia em Nova York, Martha Graham, a titã da dança moderna, continua a desafiar e a inspirar. Acompanhada por uma nova documentário e uma celebração no City Center, a obra de Graham ressoa com uma urgência atemporal, provando que sua visão sobre a condição humana permanece tão relevante quanto no século XX.
O legado imortal de uma visionária
Martha Graham não foi apenas uma dançarina; foi uma força da natureza que remodelou a linguagem da dança. Sua técnica, enraizada na contração e liberação do tronco, revolucionou a forma como o corpo se move e expressa emoções. Mas Graham era mais do que técnica; era uma exploradora incansável da psique humana, abordando temas como desejos edipianos e a crescente sombra do fascismo em suas obras.
Isamu Noguchi criou cenários minimalistas e hipnotizantes, enquanto estilistas renomados como Halston e Calvin Klein vestiram seus bailarinos, elevando a estética da dança moderna a novos patamares. No entanto, Graham, apesar de sua singularidade, via sua Arte como parte integrante do tecido americano. “Certos elementos permanecem vivos em nós, embora distantes no passado”, escreveu a Copland, em referência a Appalachian Spring (1944), um balé otimista que celebrava a fronteira americana.
O documentário We Are Our Time, que estreia em março e continua em abril, mergulha no coração da Martha Graham Dance Company, acompanhando os bailarinos em ensaios, viagens e apresentações. Mais do que uma biografia da figura icônica, o filme foca no presente, capturando a energia e a paixão que impulsionam a companhia para o seu segundo século de existência. A escolha do título, uma refraseamento de uma citação de Graham, é reveladora: “Nenhum artista está à frente do seu tempo. Ele é o seu tempo; é apenas que os outros estão ficando para trás.”
A Direção de Peter Schnall e Cyndee Readdean priorizou a observação dos bailarinos, utilizando imagens de arquivo com moderação. Uma cena particularmente comovente, em split-screen, compara Martha Graham em Lamentation (1930) com Leslie Andrea Williams na mesma obra, duas personificações da dor imortalizadas em véus roxos. A voz de Meryl Streep, escolhida para narrar as palavras de Graham, adiciona uma camada extra de emoção, com uma pausa reveladora ao ser questionada sobre a posição ideal para a gravação: “Ela hesitou e disse: ‘Eu só vi Martha Graham sentada, então vou sentar.’”

A alma da dança contemporânea
O documentário também acompanha Jamar Roberts, o coreógrafo responsável por We the People (2024), sua primeira obra para a companhia. Roberts, um ex-astro da Alvin Ailey Dance Company, compreende a profundidade da técnica Graham e a conexão visceral dos bailarinos com a terra. “Há um espírito indomável que vive aqui”, afirma Roberts no estúdio da companhia, no West Village. A cena culmina com a apresentação de We the People, com Lloyd Knight brilhando em um solo de silêncio carregado de significado.
Janet Eilber, diretora artística desde 2005, lidera a companhia com uma visão clara: “Não estamos criando um altar sagrado a Martha Graham. Estamos honrando sua sede pelo novo.” Essa mentalidade se reflete nas viagens da companhia, como a recente turnê pela China, logo após a reabertura das fronteiras. O reencontro emocionante da bailarina Xin Ying com sua mãe e a jornada de sua filha americana para compreender as emoções da família são momentos tocantes.
Em Bologna, Leslie Andrea Williams interpreta Spectre-1914, um solo poderoso de Chronicle (1936), que Graham utilizou para alertar contra o fascismo. A saia vermelha do figurino intensifica o impacto dramático da cena. A inevitável transição da companhia para novos estúdios em Midtown, com um campo de pickleball ao lado, não diminui o compromisso com a Arte. “Podemos fazer um aquecimento e um resfriamento para proteger seus músculos, tornozelos, joelhos”, brinca Eilber, com um toque de ironia.
O centenário da companhia também incluiu uma apresentação em Minneapolis, logo após o assassinato de Alex Pretti. A apresentação de We the People e Appalachian Spring, com a música atemporal de Copland, demonstrou a resiliência dos bailarinos. A colaboração com uma escola pública de Minneapolis, onde os alunos criaram uma homenagem a American Document (1938), revelou o impacto duradouro da obra de Graham nas novas gerações. “Houve áudio sobre por que suas famílias vieram para a América, e então eles dançaram as danças nativas de seus países de origem”, relata Eilber, com admiração.
Como Graham observou em sua introdução ao livro de fotografias de Barbara Morgan, “A única prova da Arte de um bailarino reside nas outras artes.” O documentário, com suas imagens vibrantes e depoimentos sinceros, é uma prova disso. Mais do que celebrar o passado, We Are Our Time ilumina a força da conexão humana e a capacidade da dança de transcender o tempo e o espaço, revelando, como disse Morgan, “as alegrias e tristezas, as esperanças e os medos, e os potenciais criativos da vida”.
