Martha graham: a centenária revolução que ainda dança conosco
Em meio a um século XX quase completo, Martha Graham, a titã da dança moderna, mantinha um olhar fixo nos ancestrais e outro no pulsar do presente. Suas obras, mergulhadas em desejos edípicos e na sombra crescente do fascismo, ecoam até hoje, provando que a Arte, como a memória, transcende o tempo.
A cenografia que se tornou personagem
Isamu Noguchi, com suas cenografias esparsas e hipnotizantes, elevou a estética da dança a um novo patamar. Mais tarde, nomes como Halston e Calvin Klein vestiriam as intérpretes de Graham, mas a essência da dança permaneceria inabalável: a exploração visceral da condição humana através da técnica única, marcada pela contração e liberação do tronco.
Graham, apesar de sua aura singular, sempre se sentiu parte integrante do tecido americano. Em uma carta a Aaron Copland, enquanto colaboravam em Appalachian Spring (1944), ela escreveu: “Certos sentimentos são vivos em todos nós, embora distantes no passado real. A América é eternamente povoada por personagens que caminham conosco no presente de forma muito real.” Essa conexão com a identidade nacional, com suas raízes e seus sonhos, permeia toda sua obra.

Celebrando um legado em movimento
Trinta e cinco anos após sua morte, aos 96 anos, Graham continua a nos acompanhar – suas ideias reanimadas pela Martha Graham Dance Company. A apresentação inaugural, em 18 de abril de 1926, no hoje extinto 48th Street Theatre em Nova York, marca o início de uma jornada extraordinária. Próximo mês, a companhia celebra seu centenário com uma série de apresentações Graham100 no City Center, não muito longe do local de sua estreia.
Em paralelo às comemorações, um novo documentário em duas partes, We Are Our Time, exibido pela PBS, oferece um vislumbre íntimo do funcionamento da companhia, desde os ensaios até os bastidores em turnê. A obra, que estreia em 27 de março e continua em 3 de abril, revela a força da conexão humana, uma premissa central para Graham: “Você não dança para uma plateia de mil pessoas. Você dança para mil indivíduos. Sempre há um para quem você fala.”

O presente redescoberto
O documentário vai além da figura visionária – ou do ícone de vanguarda, como Susan Sontag a definiu – focando no presente, no cotidiano da companhia. O título, uma reformulação de uma citação de Graham, é a chave. “Nenhum artista está à frente de seu tempo. Ele é seu tempo; é apenas que os outros estão atrás.” Os diretores Peter Schnall e Cyndee Readdean concentraram suas lentes nos bailarinos ao longo de dois anos e meio, reservando o material de arquivo para momentos pontuais – como uma tela dividida que justapõe Graham em Lamentation (1930) e Leslie Andrea Williams no mesmo papel, duas manifestações pungentes de luto em seus véus roxos.
A voz de Graham ressoa através da narração, interpretada pela formidável Meryl Streep, que, em um momento singular, revelou: “Eu só vi Martha Graham sentada, então vou sentar.” A reação da equipe de gravação foi imediata: um suspiro de admiração. A veterana das telas, ao dar vida às palavras da mestre, elevou o documentário a um novo patamar.
Novas vozes, legado inabalável
O documentário acompanha o surgimento de novas gerações de artistas. Jamar Roberts, ex-astro de Alvin Ailey, inicia os ensaios de We the People (2024), sua primeira obra para a companhia, embalada pela música vibrante de Rhiannon Giddens. Roberts, versado na técnica Graham, compreende a conexão visceral dos bailarinos com a terra – e espera que eles se aprofundem nessa energia primal. “Há um espírito indomável que vive aqui,” afirma Roberts no estúdio ensolarado do West Village, “e você não o encontra em todos os lugares.”
Janet Eilber, diretora artística desde 2005, é a responsável por guiar a companhia para seu segundo século, abraçando a novidade. “Não estamos construindo um altar sagrado a Martha Graham,” declara Eilber no filme. “Estamos honrando sua sede pelo novo.” Essa abertura à inovação se estende às viagens da companhia, como a recente turnê na China, logo após a reabertura das fronteiras. A principal Xin Ying se reencontra emocionada com sua mãe, enquanto sua filha americana tenta compreender a intensidade das emoções.
A dança, a memória e a resistência
Em uma cena particularmente impactante, Leslie Andrea Williams, em uma praça de Bolonha, interpreta Spectre-1914 – parte do balé Chronicle, que Graham usou para alertar contra o fascismo. O vestido, com uma saia rodada forrada de vermelho, intensifica o drama com flashes de cor. A resistência, a memória, o compromisso: esses são os pilares de um legado que persiste.
A relação entre cinema e dança, entre o permanente e o efêmero, é intrínseca. Alguns membros da companhia já seguiram outros caminhos. Até mesmo o lar da companhia, no topo do Westbeth, deixará de ser seu em breve. Mas, como Graham nos legou, a Arte é a chave para decifrar a condição humana, para conectar as gerações e para celebrar a força do indivíduo em comunidade. O centenário não é apenas sobre Martha Graham, mas sobre todos aqueles que a acompanharam e a continuarão a inspirar.
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