Shopping mall abandonado se transforma em galeria de arte inesperada
O esplendor dos shoppings centers, símbolo da cultura de consumo americana, já é uma lembrança distante. Mas, no coração do Vale do Hudson, um complexo abandonado encontra uma nova vida – e um propósito – através de uma ousada iniciativa artística.

Um oásis de arte em meio ao esquecimento
Nos anos 80 e 90, o antigo Hudson Valley Mall, com seus 77 estabelecimentos como Kmart e Sears, fervilhava de movimento. Hoje, o local exibe longos corredores vazios, pontuados por poucas lojas sobreviventes: um salão de beleza, um cinema, duas academias e uma única Target. Mas, para a curadora Marly Hammer e o coletivo criativo Jasper Richmus – liderados por Kate Asmus e John Richey – essa decadência é uma oportunidade.
A exposição ‘The Mall’ invade a arquitetura do centro comercial, transformando lojas antigas e áreas pouco movimentadas em espaços temporários de arte. Uma celebração da história do shopping como palco de identidade, comércio e comunidade.
A iniciativa, que se estende até domingo como parte da sétima edição do Upstate Art Weekend, um evento cultural que atrai mais de 160 exposições, estúdios abertos e instalações pela região, demonstra uma visão singular. É um convite à reflexão sobre o consumo, a cultura pop e a nostalgia – elementos que moldaram gerações.
‘Hot Topic’, um dos espaços emblemáticos, agora abriga pop-ups de marcas como Lagoon e Everywhere Shop, e a exposição ‘Off Topic’, que mergulha na cultura teen dos anos 90, com referências a música, filmes e a angústia da adolescência. As paredes exibem VHS caseiros, reproduções de camisetas vintage e obras que evocam a infância de quem cresceu na década de 90.
A curadora Marly Hammer destaca que, antes das redes sociais, os shoppings eram laboratórios de autoexpressão. “Eles funcionavam como espaços onde as pessoas descobriam quem querem ser”, afirma. O projeto nasceu da contemplação de um filme no cinema do complexo, revelando o potencial transformador das áreas abandonadas.
A equipe não se limitou a restaurar as lojas. Preservou as marcas do tempo, as poeiras e as histórias que se escondiam nos corredores. A antiga GNC agora abriga ‘Gallery New Contemporary’, uma mostra que explora a relação entre consumo e desejo, com esculturas, roupas customizadas e instalações provocativas. Linzi Silverman apresenta seus baralhos de tarot, Kian McKeown cria ilusões de ótica com papelão e Johannah Herr expõe tapetes coloridos que questionam a cultura armamentista americana.
A própria estrutura do shopping participa da arte. Ao lado da praça de alimentação, Stuart Lantry instalou uma roda-gigante que une alimentos e produtos de consumo, uma referência ao famoso banquete de Donald Trump para os torcedores do Clemson. Em outra área, Linda Colletta recria seu quarto da infância, com móveis retrô, guias de TV e o filme ‘Johnny Dangerously’ em VHS – a única gravação que sua família possuía.
O objetivo final é criar um diálogo entre arte e vida cotidiana, convidando o público a experimentar algo diferente. “Não queremos apenas expor arte, mas derrubar barreiras”, conclui Richey. Uma experiência que une colecionadores, amantes da arte e famílias em busca de um fim de semana cultural, num espaço que, por um breve momento, volta a vibrar com novas possibilidades.”n
